Análise da Música Brasileira – Parte 2

Análise das Composições: Acordes

Aqui o foco não é a letra das músicas, mas sim sua configuração harmônica, analisada através dos acordes[1] presentes. Pra começar, vamos plotar os artistas de maneira a visualizar ao mesmo tempo 4 dimensões dos acordes. Gráficos de bolhas são excelentes para isso.

aco_bolhas_geral_acordes

Vemos no gráfico acima todos os artistas brasileiros. Quanto mais à direita, maior o índice de raridade dos acordes, o que significa basicamente que as composições  são mais originais, ao menos do ponto de vista dos acordes utilizados. O recifense Lenine é o campeão nesse aspecto, pois os acordes que ele tipicamente utiliza são em média menos utilizados por outros artistas. Quanto mais acima, mais variado é o “acordário” do artista, o que denota uma exploração maior das possibilidades harmônicas. Aí, ninguém supera Chico Buarque.

Outras duas dimensões são visualizadas. O tamanho da bolha indica o tamanho (em caracteres) dos acordes cifrados, medida que pretende identificar o número de alterações na formação mais simples dos mesmos. Nesse caso, Ed Motta é o maior destaque. Já a cor da bolha mede o percentual de acordes únicos dentro do repertório do artista, valendo aplausos para artistas que conseguem manter um nível alto desse indicador mesmo contando com uma quantidade grande de acordes únicos, como Tom Jobim e Jorge Vercilo.

E o que falar de Djavan? Destaque em simplesmente TODAS as dimensões?

Próximos à origem do gráfico ficam artistas com pouca variabilidade, complexidade e originalidade de composições. Dominam o “feijão com arroz” musical o expoente do brega Bartô Galeno e o grupo de sucesso espirrônico Rouge (desculpe se te fiz lembrar da música chiclete demoníaca “Assererrê, ah, errê…”).

Quem mais se destaca? E quanto aos os gêneros musicais? Vejamos, para cada uma das métricas citadas, os 10 artistas e gêneros mais relevantes, lembrando que, para o caso dos gêneros, os valores estão ponderados pela quantidade de músicas dos artistas.

Top 10: artistas e gêneros, pela quantidade de acordes distintos utilizados

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Com Chico Buarque e outros nomes da MPB liderando o ranking de artistas, a MPB acaba também se destacando entre os gêneros. Observe como o acordário de Chico supera em 2,5 vezes a média ponderada do gênero!

Top 10: artistas e gêneros, pelo percentual de acordes distintos utilizados

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Essa medida destaca nomes novos, como o grupo de MPB carioca Crombie, e nomes da velha guarda da MPB, como Lupicínio Rodrigues e Paulo Vanzolini.

Top 10: artistas e gêneros, pelo tamanho médio dos acordes utilizados

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Esse indicador destaca o pessoal mais técnico, que explora mais as harmonias. Nomes da clássica MPB e da Bossa Nova aparecem, mas o incrível Ed Motta lidera o ranking com seu Blues/Soul/Funk. A Bossa Nova de fato explora acordes mais trabalhados, enriquecidos com nonas, sextas e outras variações. Nada de três notinhas básicas. O resultado é a liderança dentre os gêneros considerando o tamanho dos acordes.

Top 10: artistas e gêneros, pelo indicador de raridade dos acordes utilizados

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Lenine é um daqueles músicos que reconhecemos de cara ao ouvir uma música inédita. Não só os acordes como a batida da música são quase que exclusivos. A liderança nesse ranking mostra que os acordes utilizados pelo artista são na média os menos utilizados pelos demais. Originalidade na veia, meu velho! Impressionante também, embora esperado, o protagonismo do gênero Blues/Soul/Jazz. Mais que o dobro do segundo maior gênero em raridade dos acordes. Isso também condiz com a facilidade com que se identifica uma harmonia “bluesêra” por aí.

Tudo isso foi muito interessante, mas o melhor ficou pro final.

E se recriássemos os gêneros musicais brasileiros, utilizando medidas de similaridade entre os acordários (todos os acordes) dos artistas? Conseguiríamos subverter as classificações vigentes? Bom, talvez isso seja um pouco polêmico, pois já adianto que juntei Legião Urbana e Asa de Águia… #PAZ

Para realizar esse novo agrupamento, utilizei técnicas de clusterização por similaridade textual, basicamente transformando cada sequência de acordes dos artistas em vetores numéricos comparáveis pela coincidência entre termos. Não entrarei em detalhes sobre a técnica. Sugiro para os interessados a leitura deste artigo.

Vejamos os resultados, no diagrama abaixo.

clusters.png

O que o diagrama faz é criar grupos (clusters) de artistas a depender do quanto seus acordários são semelhantes. Como os grupos gerados juntam gente de diversos gêneros musicais, criei uma nova classificação de gêneros, baseada apenas nos acordes utilizados pelos artistas (não tenho, obviamente,  a mínima pretensão de que isso seja usado amanhã pela MTV ou pelo Spotfy). Eis os novos gêneros:

  • Feijoada Clássica: Brega, Sertanejos antigos, Jovem Guarda.
  • Mistureba: Rock 80, Axé, Forrós atuais, Sertanejos atuais.
  • Leve Seu Filho pro Bom Caminho: Rock 90’s, Punk etc.
  • Ouça Com Seus Pais: Ases da MPB, Velha Guarda, Sambas elaborados.
  • Pra Ninguém Reclamar: MPB atual, Axé e Pagode cult, Reggaes e Funks melódicos.

A impensável junção entre Legião e Asa de Águia ocorre no grupo Mistureba, que na prática, ao que parece, juntou acordários mais enxutos, como é próprio da Legião, dada suas influências oriundas do Rock Inglês e do Punk. O Axé Music de 90 pra cá também investe em harmonias simples.

Boa parte das bandas de Rock dos anos 80 ficam junto com Legião no “Mistureba”. Interessante ver como há uma diferença clara entre as composições do Rock 80 e do Rock 90. Bandas como Raimundos, Charlie Brown Jr e Planet Hemp ficaram no grupo denominado “Leve seu Filho pro Bom Caminho“, um dos mais concisos, vide sua posição mais destacada dos demais no diagrama.

Basicamente, a lógica de acordes mais rebuscados e mais simples provocou a cisão interna de diversos gêneros, como o Sertanejo, o Forró e até o Axé. Este último, por exemplo, teve seus representantes divididos entre os grupos “Mistureba” (músicas mais simples, como as do Babado Novo) e “Pra Ninguém Reclamar” (onde estão os representantes mais atentos à harmonia, como  Netinho e Banda Eva), se juntando com a nova MPB.

Curioso pra saber os índices de seu artista preferido?

Baixe aqui a tabela completa com todos os artistas, gêneros, indicadores relacionados aos acordes e os grupos criados!

E pra finalizar a seção, veja estas nuvens de acordes, representando os tipos mais utilizados por 2 artistas destacados aqui. Será que você identifica eles?

leninechico

Se gostou, compartilhe/comente/curta. E volte aqui em alguns dias para ver a análise das músicas sob o prisma das letras!

Todas as partes do estudo: PARTE 1 – PARTE 2 – PARTE 3PARTE 4

[1] Um acorde é o conjunto harmônico de 3 ou mais notas musicais. O mais simples possível é o chamado acorde natural, que recebe o mesmo nome da nota do primeiro grau da formação. Mais informação aqui.

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29 comentários sobre “Análise da Música Brasileira – Parte 2

  1. Legal. Acho que tudo isso é muito interessante pra desmistificar a “superioridade musical” que muitos pregam. Mais do que Legião e Asa de Águia, mostrar as similaridades de Chico Buarque e Exaltasamba deve dar uns calafrios nos dogmáticos musicais e elitistas culturais!

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  2. Olá Leonardo,

    Muito interessante o seu trabalho, fiquei impressionado! Tenho alguns comentários, no entanto. * A única base de dados de acordes que você colheu foi o site cifras.com?
    * Achei estranho o Lenine sair na frente no índice de raridade dos acordes. Me parece que ele usa acordes não tão raros mas em digitações alternativas, o que pode causar erros de notação pelo autor da cifra ou até criação de notações novas para os mesmos acordes.
    * Isso me leva a outro ponto: como foi o pré-processamento dos dados brutos dos acordes?

    Abraços

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  3. A análise é interessante, mas não faz muito sentido colocar Jazz e Blues na mesma categoria, não? Entre as coisas que mais diferenciam os dois está justamente a quantidade de acordes que é uma das variáveis comparadas, já que no jazz se usa variabilidade e complexidade bem maior de acordes enquanto o blues é em boa parte restrito à tradicional harmonia I-IV-V. Se os dois gêneros fossem analisados separadamente o resultado provavelmente seria mais informativo.

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  4. Muito interessante. Ainda estou ruminando o material.
    Quanto à raridade dos acordes, me parece que o valor tende a aumentar quando o músico é menos imitado por outros quanto ao seu estilo de harmonização. Quero dizer que outros podem ser igualmente originais, mas menos imitados.

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      1. Talvez fosse interessante fazer um levantamento do índice de utilização de cada tipo de acorde por artista e por gênero. Aí talvez seja proveitoso pesquisar uma correlação entre gêneros e artistas (ex.: Rock e Sertanejo usam acordes parecidos; Djavan e Jorge Vercilo usam conjunto de acordes similares…). Tudo isso, claro, padronizando antes a “identificação dos acordes” por graus tônicos (para fugir de meras transposições).

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  5. Muito interessante! Os resultados ficam iguais se, antes de comparar a raridade dos acordos, você altera todas as músicas para se enquadrarem numa mesma tonalidade? Acho contr-intuitivo o Jobim ficar atrás de qualquer um neste quesito…
    Outro viés potencial seria a qualidade das partituras que podem ter sido transcritas por músicos distinctos…

    Parabéns!

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    1. Não testei padronizado as mudanças de tonalidade. A qualidade das partituras sem dúvida eh uma potencial limitação. Mas não há um repositório desses dados tão abrangente quanto os sites de cifras.
      Valeu pelo feedback!

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  6. Sensacional seu estudo. Mostra uma dedicação ao código (no caso aqui usado o Python) e conhecimento sobre os conceitos. Tomou cuidado para usar somente aquilo que é objetivo, ou seja, palavras e acordes por exemplo, deixando de lado as possíveis subjetividades. Parabéns.

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  7. A intenção é boa mas a metodologia é muito limitada, me desculpe. Não é possível concluir muita coisa sobre esses resultados. Como o coleta acima disse, existem características inerentes ao estilo musical e que não necessariamente indicam maior ou menor complexidade. Exemplo do número e raridade de acordes e o Blues. O Rock constituído por bandas onde a execução das músicas pelos diversos instrumentistas apresenta muito maior complexidade do que uma MPB 15 acordes/banquinho/violão….e por aí vai. Essas limitações acabam gerando resultados que exigem muito rebolado para serem discutidos.

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  8. Parabéns pela pesquisa ! Mas tenho dúvidas quanto a Chico: acho que o que puxou ele para cima na complexidade harmônica foram as composições de Tom Jobim, nas quais Chico fez somente a letra (como Luiza, Sabiá, Anos Dourados e muitas outras).

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  9. Eu ri com esse parágrafo
    “Próximos à origem do gráfico ficam artistas com pouca variabilidade, complexidade e originalidade de composições. Dominam o “feijão com arroz” musical o expoente do brega Bartô Galeno e o grupo de sucesso espirrônico Rouge (desculpe se te fiz lembrar da música chiclete demoníaca “Assererrê, ah, errê…”)”

    Demorarei a esquecer essa música hahha

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  10. Muito interessante o trabalho, parabéns. Naturalmente, o método que vc utilizou pra viabilizar a quantificação de certos parâmetros é problemático. Ainda sim o resultado é instigante e estimula várias outras questões. Da mesma forma que vc avaliou os artistas a partir do ” tamanho” do acorde, poderia pensar tbm em termos de relação melodia/ harmonia. Discriminar aqueles compositores em que a relação da melodia com a harmonia se desse da maneira mais dissonante( utilizando mais as extensões dos acordes) ou menos . Valeu, abração!

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